A pesca esportiva na Amazônia tornou-se uma das principais atividades associadas ao turismo de natureza no Amazonas. Visitantes brasileiros e estrangeiros percorrem rios, lagos e igarapés em busca de espécies como o tucunaré, especialmente o tucunaré-açu, enquanto contratam serviços de guias, embarcações, barcos-hotéis, pousadas e operadores especializados.
A atividade concentra-se em diferentes áreas do estado, com destaque para municípios como Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, Novo Airão e Tefé, além de trechos do Rio Negro. A expansão do segmento também alcança comunidades ribeirinhas, que participam da cadeia de serviços e podem obter renda com condução, hospedagem, alimentação, transporte e apoio logístico.
O crescimento, porém, ocorre em um ambiente que exige regras específicas. No Amazonas, a pesca esportiva é associada ao turismo e ao desporto e deve ser praticada na modalidade pesque e solte. A legislação estadual também estabelece restrições para o tucunaré e determina que a atividade observe áreas autorizadas, capacidade de suporte dos ambientes, períodos de defeso e normas locais.
Rio Negro é um dos principais destinos
O Rio Negro reúne parte importante da estrutura voltada à pesca esportiva no Amazonas. A extensão do sistema de rios, lagos e afluentes oferece diferentes ambientes para a prática, conforme o nível das águas, a época do ano e as características de cada região.
Barcelos é reconhecido como um dos destinos mais conhecidos do país para a pesca do tucunaré. O município recebe expedições organizadas por operadores turísticos e barcos-hotéis, que conduzem os visitantes a áreas afastadas dos centros urbanos. Santa Isabel do Rio Negro, Novo Airão e outros municípios do entorno também aparecem entre os polos relacionados à atividade.
A busca pelos peixes amazônicos não se limita ao tamanho dos exemplares. Para muitos visitantes, a viagem combina pesca, observação da floresta, deslocamento por rios e contato com modos de vida ribeirinhos. A experiência, portanto, depende tanto da captura quanto da paisagem, da navegação e da organização da viagem.
Tucunaré é o principal símbolo da atividade
O tucunaré ocupa posição central na pesca esportiva amazônica. A espécie é conhecida pelo comportamento considerado combativo durante a captura e pela presença em diferentes ambientes de água doce. No Amazonas, o tucunaré foi definido por lei como peixe-símbolo da pesca amadora e esportiva.
A Lei Estadual nº 6.647, de 15 de dezembro de 2023, estabeleceu normas para a atividade relacionada ao tucunaré. Entre as medidas previstas está a proibição do abate da espécie por pescadores amadores e esportivos, com a adoção do sistema pesque e solte.
A mesma legislação prevê restrições para a captura, o embarque, o transporte, o abate e o processamento de variedades como o tucunaré-açu, o tucunaré-vazoleri e o tucunaré-pinima. As regras não eliminam a pesca de subsistência, que possui tratamento específico na legislação.
Em abril de 2024, outra lei estadual reconheceu a pesca esportiva como modalidade esportiva e como atividade de relevante interesse econômico e cultural para o Amazonas. O texto também reforçou a definição da prática como pesca amadora voltada ao turismo ou ao desporto, sem finalidade comercial e com devolução do peixe vivo ao ambiente.
Atividade movimenta serviços e mão de obra local
O turismo de pesca depende de uma cadeia que começa antes do embarque. Operadores organizam roteiros, transporte, hospedagem, alimentação, equipamentos, guias e deslocamentos pelos rios. Em viagens mais longas, os barcos-hotéis funcionam como base para as equipes e permitem alcançar áreas distantes das sedes municipais.
O impacto econômico se distribui por diferentes setores. Além dos operadores diretamente ligados à pesca, a atividade pode beneficiar condutores locais, pilotos de embarcação, cozinheiros, fornecedores de combustível, comerciantes, pequenos empreendedores e trabalhadores responsáveis pela manutenção dos barcos.
Levantamento divulgado pela Amazonastur em 2019 apontou que 27,03% dos turistas nacionais que visitaram Manaus a lazer declararam ter como motivação a pesca esportiva nos rios amazonenses. O mesmo levantamento registrou que 36,84% dos estrangeiros que estiveram na capital a lazer visitaram atrativos naturais em busca de experiências de aventura.
Os dados são de um período específico e não representam, necessariamente, o fluxo atual. Ainda assim, ajudam a demonstrar que a pesca esportiva já tinha participação relevante na demanda turística do estado. Em outro balanço divulgado pela própria Amazonastur, o segmento foi estimado em mais de 20 mil turistas por temporada e em movimentação financeira superior a R$ 100 milhões, segundo informações apresentadas em 2019.
Temporada depende do nível dos rios
O calendário da pesca esportiva é influenciado pelo regime de cheias e vazantes dos rios amazônicos. A variação do nível da água altera o acesso a lagos, igapós, canais e áreas de floresta alagada. Também modifica a distribuição dos peixes e as condições de navegação.
Por esse motivo, os roteiros podem mudar de acordo com o período do ano e com o rio escolhido. Em determinados momentos, os peixes ficam mais acessíveis em canais e lagos; em outros, a expansão das áreas alagadas modifica os locais de procura. A definição da melhor época depende da região, da espécie desejada e da avaliação dos operadores locais.
A Amazonastur já indicou o período entre o fim do ano e os primeiros meses do ano seguinte como uma janela tradicional para viagens de pesca esportiva no Amazonas. A recomendação, contudo, não substitui a consulta às regras vigentes, aos períodos de defeso e às condições locais de navegação.
Pesque e solte exige cuidados
A devolução do peixe ao rio não significa que a captura esteja livre de impacto. O manejo inadequado pode provocar ferimentos, retirada prolongada da água e mortalidade dos animais. Por isso, a pesca esportiva responsável envolve equipamentos compatíveis, manuseio rápido, cuidado com as estruturas do peixe e devolução em condições adequadas.
O uso de anzóis e acessórios apropriados, a redução do tempo de exposição fora da água e o apoio de guias experientes são medidas que podem contribuir para a sobrevivência dos exemplares. O comportamento dos visitantes também deve incluir a preservação da vegetação, a destinação correta dos resíduos e a proibição de retirada de animais ou plantas da floresta.
Em áreas frequentadas por comunidades, a atividade precisa respeitar acordos locais e costumes de uso dos rios. A presença de visitantes não deve impedir a pesca de subsistência nem comprometer o acesso das populações tradicionais aos recursos necessários para sua alimentação.
Regras ambientais variam conforme o local
As normas aplicáveis à pesca não são iguais em todos os rios amazônicos. A bacia hidrográfica reúne diferentes estados, municípios, unidades de conservação e áreas sujeitas a regras específicas. Por isso, o visitante deve verificar previamente as exigências do local escolhido.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mantém normas gerais para períodos de defeso na bacia do rio Amazonas. Essas regras tratam de espécies protegidas, limites de captura, transporte e documentação de origem, além de restrições que podem variar conforme o estado e o trecho do rio.
No Amazonas, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) informa que determinadas atividades de pesca amadora, esportiva e recreativa dependem de Certificado de Registro de Pesca e do cumprimento de exigências previstas em normas estaduais. Operadores, agências e embarcações também podem estar sujeitos a procedimentos específicos de registro e licenciamento.
O Ipaam reúne orientações sobre pesca esportiva, documentação e legislação. Antes da contratação, o visitante deve confirmar se o operador está regularizado e se o roteiro está autorizado para o período programado.
Desafios para a expansão do turismo
O crescimento da pesca esportiva ocorre em uma região de grandes distâncias, infraestrutura limitada e forte dependência do transporte fluvial. O acesso a muitos destinos exige voos até Manaus ou municípios do interior, deslocamentos de barco e planejamento antecipado.
Também existem desafios relacionados à fiscalização, à coleta de dados e ao controle da capacidade de visitação. Sem informações consistentes sobre o número de turistas, a pressão sobre cada ambiente e os resultados econômicos para as comunidades, torna-se mais difícil definir limites e avaliar a sustentabilidade da atividade.
A legislação amazonense prevê o cadastramento e o licenciamento de operadores de pesca não comercial do tucunaré. O ordenamento também deve considerar a capacidade de suporte dos ambientes aquáticos e a participação dos atores locais, incluindo comunidades, empresas, pescadores e órgãos públicos.
Na prática, a consolidação do turismo de pesca depende de equilíbrio entre atração de visitantes e proteção dos rios. A atividade pode gerar renda e ampliar o interesse pela conservação, mas precisa ser acompanhada de fiscalização, planejamento, qualificação profissional e transparência sobre seus resultados.
Pesca esportiva integra turismo de natureza
A pesca esportiva na Amazônia está ligada a uma experiência turística mais ampla. A viagem envolve rios, floresta, fauna, culinária regional e contato com comunidades. Em razão disso, o visitante costuma consumir diferentes serviços durante a permanência no destino, mesmo quando a pesca é o motivo principal do deslocamento.
Para os municípios amazônicos, o segmento representa uma possibilidade de diversificação econômica. A atividade não depende apenas de grandes estruturas urbanas e pode ser organizada a partir de serviços locais, desde que haja capacitação, segurança, regularização e respeito aos modos de vida das populações ribeirinhas.
O futuro do setor, entretanto, está diretamente relacionado à conservação dos ambientes aquáticos. A proteção das nascentes, das margens, dos lagos e das áreas de reprodução é essencial para manter a diversidade de peixes e a própria atratividade dos roteiros.
Com regras claras, operadores autorizados e participação das comunidades, a pesca esportiva pode continuar atraindo visitantes para diferentes rios amazônicos sem transformar a atividade em ameaça aos estoques pesqueiros. O desafio é fazer com que o turismo se desenvolva junto com a preservação dos ecossistemas que sustentam a experiência.
Fontes: Amazonastur, Ibama, Ipaam e legislação do Estado do Amazonas.


