A castanha-do-brasil na Amazônia percorre uma longa cadeia antes de chegar às prateleiras dos supermercados, às feiras e às indústrias de alimentos. O caminho começa dentro da floresta, com a coleta dos frutos que caem naturalmente das castanheiras, e passa por etapas de seleção, transporte, secagem, armazenamento, beneficiamento e comercialização.
Embora o produto seja encontrado em diferentes formatos — com casca, descascado, torrado, triturado ou transformado em farinha e óleo — sua origem está nos castanhais nativos mantidos por comunidades extrativistas, povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares. Em muitos casos, a produção depende de deslocamentos por trilhas, rios e estradas em regiões distantes dos grandes centros consumidores.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Brasil produziu 34.909 toneladas de castanha-do-pará em 2024, com valor de produção de R$ 195,471 milhões. Amazonas, Pará, Acre, Mato Grosso, Roraima e Rondônia aparecem entre os estados com registros de produção. (ibge.gov.br)
O início da jornada acontece no castanhal
A castanheira, espécie conhecida cientificamente como Bertholletia excelsa, produz frutos lenhosos chamados de ouriços. Eles podem pesar até cerca de 1,5 quilo e abrigar aproximadamente 25 sementes, segundo informações técnicas da Embrapa. Quando amadurecem, os frutos caem no período chuvoso, em um momento que varia conforme a região amazônica. (embrapa.br)
O trabalho dos extrativistas começa com o planejamento das áreas de coleta e a abertura ou limpeza das trilhas de acesso. Depois da queda dos ouriços, os coletores percorrem o chão da floresta para reunir os frutos e levá-los a um ponto de amontoa. Essa etapa exige atenção, porque a permanência prolongada dos ouriços no solo pode aumentar o contato com umidade, microrganismos e resíduos.
As boas práticas recomendadas pela Embrapa orientam que a coleta seja feita logo após o pico de queda. Também indicam que os ouriços não sejam amontoados repetidamente no mesmo local, que a quebra ocorra em superfície limpa e que as castanhas sejam transportadas, de preferência, no mesmo dia da coleta e da abertura dos frutos. (portaldxp-p.sede.embrapa.br)
O ouriço é aberto com ferramentas apropriadas para liberar as sementes, que ainda estão protegidas por uma casca. Castanhas quebradas, danificadas ou em contato inadequado com o solo devem ser separadas. O objetivo é reduzir perdas e evitar que unidades deterioradas comprometam todo o lote.
Transporte por trilhas, rios e estradas
Depois da coleta, a castanha costuma ser transportada em sacos ou recipientes até estruturas comunitárias, armazéns, casas de extrativistas ou unidades de beneficiamento. Em áreas isoladas, o deslocamento pode envolver carregamento manual, animais, pequenos veículos e embarcações.
A logística é um dos principais obstáculos da cadeia. A distância entre os castanhais e os centros de compra aumenta o tempo de armazenamento e os custos de escoamento. Durante o período chuvoso, ramais podem ficar difíceis de trafegar e o nível dos rios interfere no deslocamento das comunidades.
Estudo metodológico produzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aponta que a cadeia da castanha enfrenta desafios relacionados à infraestrutura, ao isolamento geográfico, à armazenagem, ao beneficiamento, à comercialização e à distância dos mercados consumidores. O documento também destaca questões sociais e econômicas, como a necessidade de fortalecer organizações comunitárias e melhorar a remuneração dos extrativistas. (gov.br)
Em algumas iniciativas, a criação de estruturas de armazenamento e processamento próximas aos castanhais reduz o tempo entre a coleta e o beneficiamento. Na Reserva Extrativista do Rio Unini, no Amazonas, uma central agroextrativista foi instalada na região de produção para permitir que os moradores participassem de etapas como coleta, armazenamento, processamento e embalagem. (gov.br)
Secagem e armazenamento exigem cuidados
A castanha recém-coletada apresenta umidade e precisa passar por procedimentos que preservem sua qualidade. Após a quebra dos ouriços e a primeira seleção, as sementes podem ser lavadas, conforme as práticas adotadas em cada região, e encaminhadas para a pré-secagem.
Orientações técnicas do Ministério do Meio Ambiente recomendam que a pré-secagem ocorra em estruturas limpas, ventiladas e protegidas do contato direto com o solo. As castanhas devem ser espalhadas em camadas e revolvidas periodicamente para favorecer a perda de umidade. O armazenamento precisa evitar chuva, excesso de calor e acúmulo de água. (gov.br)
Na prática, essa é uma das fases mais delicadas da cadeia. A castanha pode permanecer durante semanas ou meses na floresta ou em depósitos antes de seguir para uma usina. Segundo a Embrapa, o armazenamento prolongado em condições inadequadas favorece a contaminação por fungos produtores de aflatoxinas e por outros microrganismos. (embrapa.br)
As aflatoxinas são substâncias produzidas por determinados fungos, especialmente em ambientes com umidade e temperatura elevadas. Por isso, o controle da umidade, a ventilação, a limpeza das estruturas e a retirada de castanhas deterioradas são medidas importantes para a segurança do alimento.
A legislação brasileira estabelece procedimentos de controle higiênico-sanitário ao longo da cadeia, incluindo coleta, transporte, armazenamento, beneficiamento e comercialização. Também prevê mecanismos de rastreabilidade, amostragem, análise laboratorial e adoção de procedimentos de higiene e controle de riscos nas unidades de processamento. (sistemasweb.agricultura.gov.br)
Da castanha com casca à amêndoa pronta para consumo
Nas unidades de beneficiamento, a castanha passa por novas etapas de limpeza, classificação e processamento. O objetivo é retirar a casca, separar as amêndoas conforme tamanho e qualidade e preparar o produto para diferentes usos comerciais.
Um dos procedimentos empregados é a autoclavagem, processo térmico que facilita a separação da amêndoa da casca. Depois, as castanhas podem passar por resfriamento, descascamento, seleção e secagem. Os lotes também podem ser submetidos a análises físicas e laboratoriais para verificar umidade, impurezas e presença de contaminantes.
A castanha inteira costuma alcançar maior valor comercial, especialmente quando apresenta tamanho uniforme, boa aparência e baixo índice de quebra. As unidades menores ou quebradas podem ser destinadas à indústria de alimentos, à produção de farinhas, barras, doces, granolas, cremes e outros produtos.
O beneficiamento é uma das etapas que mais agregam valor ao produto. Quando realizado próximo às comunidades, ele pode ampliar a renda local e reduzir a dependência da venda da castanha bruta para intermediários. No entanto, a instalação e a manutenção de uma usina exigem equipamentos, energia, mão de obra especializada, controle sanitário e capacidade de gestão.
Cooperativas ajudam a organizar a comercialização
A venda da castanha pode envolver extrativistas individuais, associações, cooperativas, comerciantes, beneficiadoras, distribuidores, indústrias e varejistas. Cada participante cumpre uma função, mas a distribuição do valor gerado nem sempre é equilibrada.
Cooperativas e associações podem reunir a produção, padronizar lotes, negociar preços, organizar o transporte e buscar mercados para a castanha beneficiada. Também podem facilitar o acesso a equipamentos, capacitações e programas de apoio à produção sustentável.
Projetos apoiados pelo Fundo Amazônia já investiram na melhoria de barracões, mesas de secagem, armazenamento e unidades de beneficiamento em comunidades extrativistas. A proposta é aperfeiçoar a qualidade do produto e aumentar a participação dos produtores nas etapas que geram mais valor. (fundoamazonia.gov.br)
Mesmo assim, a cadeia continua marcada por diferenças regionais. Em algumas localidades, os extrativistas têm acesso a estruturas próprias de processamento. Em outras, a produção precisa percorrer longas distâncias até chegar a uma beneficiadora, o que eleva os custos e aumenta os riscos de perda de qualidade.
Produto da floresta e alternativa ao desmatamento
A castanha-do-brasil é um dos principais produtos florestais não madeireiros da Amazônia. Como a coleta ocorre em castanheiras nativas, o modelo depende da manutenção da floresta em pé e do conhecimento acumulado pelas comunidades que trabalham nos castanhais.
Esse vínculo, porém, não significa que a atividade esteja livre de riscos. A abertura de estradas, a derrubada de árvores, a pressão sobre territórios tradicionais, as queimadas e as mudanças nas condições climáticas podem afetar o acesso aos castanhais e a produtividade das árvores.
A coleta também precisa ser planejada para reduzir danos à regeneração da espécie. Boas práticas de manejo procuram manter árvores produtivas, preservar áreas de coleta e garantir condições seguras para os trabalhadores, que enfrentam terrenos acidentados, longas caminhadas e o risco de queda de frutos.
O fortalecimento da cadeia depende, portanto, de mais do que aumentar a produção. São necessários investimentos em transporte, armazenamento, tecnologia, assistência técnica, organização comunitária, rastreabilidade e acesso a mercados que reconheçam a origem e a qualidade do produto.
O que chega ao consumidor
Quando aparece embalada no comércio, a castanha já percorreu uma sequência de etapas que pode começar meses antes da venda. O produto foi coletado em um castanhal, retirado do ouriço, selecionado, transportado, seco, armazenado, beneficiado, classificado, embalado e distribuído.
O resultado final depende da eficiência de cada elo. Um atraso no transporte, uma estrutura inadequada de secagem ou uma falha no armazenamento pode comprometer um lote inteiro. Da mesma forma, a melhoria em uma etapa pode reduzir perdas, aumentar a segurança do alimento e ampliar a renda das comunidades produtoras.
A longa jornada da castanha-do-brasil na Amazônia revela a complexidade de um produto que costuma ser associado apenas à floresta. Entre a queda do ouriço e a chegada ao mercado, existe uma cadeia formada por trabalho extrativista, logística regional, conhecimento tradicional, controle sanitário e processamento industrial.








